A falta de chuva e as mudanças climáticas: crise ou oportunidade em Portugal?

Quem vive na Península Ibérica pode perceber a mudança na distribuição de chuva, e mesmo na sua redução de volume. Portugal possui a maior parte de seu continente com índices pluviométricos médios anuais inferiores a 600 milímetros. A população urbana cresceu e além disso, o uso de água na agricultura mais tecnificada e competitiva aumentou exponencialmente. Nos últimos 20 anos investimentos governamentais em grandes barragens e albufeiras não conseguiram evitar a crise hídrica ameaçando muitas atividades rurais essenciais a toda população.



De quem é a responsabilidade desta situação? Câmbio climático? Esta é primeira resposta. O que é melhor: encontrar culpados ou ajuda a encontrar uma solução? Sabemos que há um pacto entre os países europeus para reduzir as alterações do clima. Mas os resultados poderão ser sentidos a curto prazo para algo que vínhamos alterando há muito tempo? Muito provavelmente continuaremos com a crise hídrica por anos a vir. É preciso reagir com ações de impacto mais imediato e estas serão muito mais efetivas por quem vive e trabalha no meio rural.


Historicamente, a forma como a agropecuária lidou com os recursos naturais para produção de alimentos foi bastante irresponsável. A retórica que esse modelo tradicional de agricultura está na Europa mediterrânea há milênios, resultou nos muitos problemas que se agravaram atualmente. O modelo contemporâneo de cultivo intensivo com remoção da vegetação original também tem um balanço hídrico desfavorável. Durante todo esse período a alteração do equilíbrio do ambiente para implantação dos diversos cultivos pouco se importou com os ciclos na natureza. Quando se fala em água sua relação com um recurso natural foi pouco percebida.


O solo é capaz de manter e regular as águas que irão atingir os lençóis freáticos, diminuir a taxa de evaporação da água, ajuda na recuperação de charcas, regula o volume de ribeiras e barragens. É preciso olhar para o solo como algo que continha maior diversidade de espécies vegetais. A natureza é capaz de nos mostrar o caminho. É possível ter uma agricultura produtiva e economicamente viável que contribua também para usar e contribuir com os recursos hídricos? O solo mantendo-se coberto todo ano e recebendo depoisção dos residuos vegetais pode elevar o seu nível matéria orgânica. Esta pode ajudar a reter dez vezes seu peso em água.



A circulação da água em sistemas agrícolas ecologicamente mais biodiversos contribui para respostas de curto prazo no campo com consequências para os usuários da água nos núcleos urbanos também. Essa nova agricultura ganha força com diversos nomes. Independentemente da denominação, os setores agrícolas devem buscar reduzir espaço para extensivos monocultivos e maior espaço para diversidade. A integração da agricultura com a paisagem natural que existiu um dia, é necessária para melhor gestão da água. Essa é a oportunidade que está a passar para que o setor agrícola transforme uma crise numa estratégia para seu futuro.

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