Pode o mercado de leguminosas crescer através de modelos de fixação de carbono (Carbon Farming)?

Os modelos de fixação de carbono (Carbon Farming) estão a ganhar um forte impulso na UE como uma estratégia para alcançar o compromisso de atingir a neutralidade climática até 2050. A necessidade de capturar, armazenar e reciclar o carbono levou a Comissão Europeia adotar a Comunicação “Ciclos de Carbono Sustentáveis” ​​que descreve um conjunto de ações que visam aumentar a remoção de carbono da atmosfera[1].



A gestão sustentável da terra é fundamental para aumentar o carbono capturado e armazenado nas plantas e nos solos. A fixação de carbono é um modelo empresarial ecológico que recompensa os gestores de terras que adotem práticas de manejo que aumentem o sequestro de carbono na biomassa viva, matéria orgânica morta e solos, favorecendo a biodiversidade e o capital natural global.


Os gestores de terras geram créditos de carbono que podem ser uma nova fonte de rendimento, paralela aos seus produtos tradicionais, como os alimentos e a biomassa. Os compradores destes créditos podem ser, por exemplo, empresas de processamento de alimentos que precisem de reduzir a sua pegada de carbono. Além do benefício financeiro, existem também benefícios adicionais para o gestor das terras, como por exemplo o aumento da fertilidade do solo e da resiliência às mudanças climáticas.


Existem diversas práticas de manejo do solo que podem ser aplicadas para enriquecer o carbono orgânico, sendo a sua seleção dependente das condições do local, incluindo a topografia, o tipo de solo e as práticas de manejo passadas e atuais. São exemplos dessas práticas o uso de culturas intercalares ou culturas de cobertura para proteger o solo (reduzir a erosão do solo) e aumentar o carbono orgânico, e a conversão direcionada de terras agrícolas para pastagens permanentes.


Considerando que é necessário aumentar a biodiversidade e simultaneamente proteger o solo, as leguminosas podem ser uma alternativa interessante para enfrentar ambos os desafios e contribuir para a implementação de modelos de fixação de carbono.


O cultivo de leguminosas em sistemas intensivos de produção agroalimentar promove a heterogeneidade de habitats e a conservação de espécies consideradas essenciais para a conservação da natureza, tais como artrópodes, aves e pequenos mamíferos [2]. Além disso, as leguminosas fornecem recursos florais que auxiliam na manutenção dos polinizadores que beneficiam a produção de alimentos e o melhoramento vegetal.


As leguminosas melhoram a fertilidade do solo por associação com microrganismos, como o rizóbio, que fixam o azoto atmosférico, tornando-o disponível para as leguminosas e outras culturas[3]. Este processo é conhecido como a fixação do azoto e garante o fornecimento contínuo de azoto ao solo sem o uso de fertilizantes artificiais. As pastagens com misturas de gramíneas e leguminosas apresentam alta produtividade em comparação com as monoculturas, devido à transferência de N das leguminosas para as gramíneas e ao uso mais eficiente dos recursos do solo associado à diferente estrutura radicular[4].

Para além dos benefícios referidos anteriormente, as leguminosas podem ser uma fonte de rendimento através da sua comercialização como ração animal e/ou para consumo humano. As leguminosas têm sido associadas a múltiplos benefícios para a saúde estando os consumidores a aumentar a sua integração na dieta diária, o que, por sua vez, está a promover o crescimento do mercado global de leguminosas[5].


A Food4Sustainability está atualmente a colaborar com a Associação Vegetariana Portuguesa (AVP)[6] no âmbito do projeto Proteína Verde. Este projeto visa o aumento gradual de proteínas vegetais na dieta dos consumidores como estratégia para reduzir a pegada ecológica portuguesa e mitigar o impacto das alterações climáticas.


Para finalizar, sim, acreditamos que o mercado de leguminosas pode aumentar através dos modelos de fixação do carbono, pois o seu cultivo cumpre os requisitos de aumento da biodiversidade e proteção do solo, podendo ser uma fonte alternativa de rendimento para os gestores das terras através dos créditos de carbono e a comercialização das leguminosas como alimentos para consumo humano ou rações.


Referências:

[1] Communication from the Commission to the European Parliament and the Council. Sustainable Carbon Cycles. (15.12.2021) https://ec.europa.eu/clima/document/download/26c00a03-41b0-4d35-b670-fca56d0e5fd2_en

[2] Ferreira H, et al (2021) Legumes as a Cornerstone of the Transition Toward More Sustainable Agri-Food Systems and Diets in Europe. Front. Sustain. Food Syst. 5:694121. doi: 10.3389/fsufs.2021.694121

[3] Kebede E. (2021) Contribution, Utilization, and Improvement of Legumes-Driven Biological Nitrogen Fixation in Agricultural Systems. Front. Sustain. Food Syst. 5:767998. doi: 10.3389/fsufs.2021.767998

[4] Barneze, et al (2020) Legumes increase grassland productivity with no effect on nitrous oxide emissions. Plant Soil 446, 163–177. Doi:10.1007/s11104-019-04338-w

[5] OECD/FAO (2021), OECD-FAO Agricultural Outlook 2021-2030, OECD Publishing, Paris, https://doi.org/10.1787/19428846-en

[6]Associação Vegetarianismo Portuguesa (AVP), www.avp.org.pt/


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